23 de junho de 2005

POLÍCIAS

Vi-me, ontem, entalado na rua da Boavista, em Lisboa, entre milhares de polícias e guardas. O que nunca é divertido.
Primeiro que tudo, não sabia que eram tantos. Como continuamos todos a ter medo de andar de noite por certas zonas da cidade, depreendia que não havia pessoal. Afinal, há. Estão é no parlapié nas esquadras. A ver se chega a hora de ir para casa, que é onde se está bem e não se corre riscos.
Milhares de homens (algumas mulheres) gritavam ao som do futebolístico "CAMPEÃO! CAMPEÃO... CAMPEÃO É CAMPEÃO... LSB... LSB... etc", que é uma coisa que se tem ouvido nos últimos tempos. Mudaram foi a letra para "GATUNO! ÉS GATUNO..."... Foi bonito.
A horda dividia-se também na atitude, os mais novos iam em normal protesto. Os mais velhos agrediam a rua com os gritos. De vez em quando, pareceu-me ouvir mesmo alguns "Filho da Puta...". mas deve ter sido impressão minha, tratando-se de forças da ordem tão ordeiras que mesmo quando há gente decepada ou enforcada nas esquadras, nada aconteceu...
Sócrates propôs-se reduzir a despesa pública através da redução de privilégios. Obviamente que todas as corporações onde tocar se vão torcer. Os polícias querem manter um sistema de saúde privado particular, pago por todos nós, para si, família, ex-mulheres, filhos que já não moram com eles, etc. Acho bem. Pressuponho que os militares também quererão a mesma coisa. E todos os outros de quem nós não sabemos. Fazem bem em querer manter as benesses. Eu também gostaria. Se não fosse um dos que se limita a pagar, a pagar, a pagar, recebendo pouco em troca. Como a maioria, aliás.
Venham a próxima greve e manifestação. Diz a História da política portuguesa que os governos recuam sempre. É preciso é apertá-los com os lobbies.

21 de junho de 2005

ESTAR MORTO É O CONTRÁRIO

É bonito ver o frenesim das discussões sobre feriados nacionais e nomes de rua, sempre que morre um escritor ou um pensador em sentido lato. As presidências excitam-se, as câmaras e juntas de freguesia batem no peito com orgulho. E não tarda nada que não surja uma rua dos subúrbios com o nome do falecido.
Há quem diga que os portugueses não acarinham os seus criadores. É falso. Não têm é pressa...
O VERÃO

Os gatos espalham-se pela casa. Sobem escadas, enfiam-se em armários, apreciam - por uma vez - a banheira, em busca do Lugar Fresco. O paraíso dos bichos com pele.
Os gatos aborrecem-se com o Verão. Não é por acaso que se lhe chama "canícula".
Se me encontrarem enroscado por debaixo do lavatório, ao lado dos felinos, não se admirem.

20 de junho de 2005

PROFESSORES
Não sei em pormenor as razões da greve. Fiquei com a ideia que este Ministério teria avançado com uma série de propostas mais polémicas como estratégia negocial. Por exemplo, afirmam que não faz sentido um professor dar formação fora do seu horário lectivo, o que seria uma coisa ridícula porque implicaria entre outros aspectos que os secretários de estado e os deputados não usassem os telefones dos gabinetes ou o tempo em que lá se encontram para tratarem dos seus negócios e processos pendentes dos seus escritórios de advocacia, o que nunca se viu. Enfim, pareceu-me mais moeda de troca que outra coisa.
Os últimos governos têm elegido como alvo os professores (leia-se do ensino básico e secundário porque no superior - que é onde eles ganham a vida - nunca tocam...) e principal razão do desiquilíbrio financeiro e desnorte de prioridades do M. da Educação. Basta entrar numa escola para perceber que isto não faz sentido. Primeiro, há muitos outros funcionários além dos docentes. A maioria bastante improdutiva, para não dizer contraproducente, por sinal. Vão desde a vigilância e (falta de) limpeza às secretarias, etc, etc. Toda essa gente custa dinheiro. Muita é supranumerária.
Depois, tem havido um esforço gigantesco das associações de pais com o beneplácito eleitoral dos governos para acabar com as férias dos professores. Reduzi-las ao mínimo, ao mês de Agosto, quanto muito. Sobre este assunto proponho apenas aos pais esta imagem: pensem que organizavam festas de aniversário para 20 ou 30 crianças, várias vezes ao dia, durante toda a semana. Agora multipliquem isso por 10 meses. No fim, talvez percebam, como eu percebo, por que razão é necessário dar espaço à recuperação dos professores. E, não, não acho que a escola seja um depósito de crianças e adolescentes em delírio. É preciso manter os meninos fora da rua, enquanto os pais trabalham, mas aumentar o horário dos professores para essa tarefa é capaz de não ser solução.
Não sei se os professores têm toda a razão para fazerem greve, mas duvido que sejam a principal causa dos males da educação.

17 de junho de 2005

O STRESS

Houve um tempo em que quando me ligavam em stress à sexta-feira, a minha calma se perdia.
Acreditava que se aquela pessoa estava irritada comigo era mesmo porque eu tinha feito alguma coisa de errado. Mesmo se depois da reflexão não via razão para tal, ainda assim me penalizava.
Depois descobri que são quase sempre os mesmos a tomarem-se de ira ao fim-de-semana. Quase sempre antes de irem para casa para um casamento que já deu o que tinha a dar. Ou de deixarem por dois dias o emprego que os está a consumir de insatisfação.
Hoje, dou-lhes a minha solidariedade. O sentimento de culpa é que deixo com eles, que escolhem todas as manhãs a própria a vida.
COMO DIRIA S.PAULO

Dizem-me os amigos que em Portugal não se pode pedir dinheiro por um bilhete de teatro. Que a malta está habituada a não pagar. Mais: que não é costume pagar-se. Que qualquer preço "é caro". No teatro "sério", leia-se. Pergunto a mim mesmo onde terá começado este porreirismo geral obrigatório e que frequentemente descamba em salas vazias e quase-súplicas para que vão ver o que tanto trabalho deu a montar...
Estarei "cego" ou não deveria todo o trabalho honesto ser compensado?

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(A CIBERNÉTICA)
Foto: António Jorge Gonçalves

15 de junho de 2005

A PRIMEIRA POESIA

Não gostava nada de poesia, na minha adolescência. Até a escola me obrigar a ler Eugénio de Andrade. E desse dia em diante comecei a anotar as coisas de maneira diferente. A leitura do mundo assumiu-se como uma possibilidade poética.
Hoje, por e-mail, recebo do Pen Club a lembrança de alguns dos seus versos que me apetece partilhar:

"Apenas um Corpo Respira.
Um corpo horizontal,tangível, respira.
Um corpo nu, divino,respira, ondula, infatigável.
Amorosamente toco o que resta dos deuses.
As mãos seguem a inclinaçãodo peito e tremem,pesadas de desejo.
Um rio interior aguarda.
Aguarda um relâmpago,um raio de sol,outro corpo.
Se encosto o ouvido à sua nudez,uma música sobe,ergue-se do sangue,prolonga outra música.
Um novo corpo nasce,nasce dessa música que não cessa,desse bosque rumoroso de luz,debaixo do meu corpo desvelado."
E.A.

11 de junho de 2005

BOTÃO VERMELHO

Calculo que já toda a gente conheça... Mas eu descobri-o agora.
Lol!
VOAR SEM MEDO (ou ÍCARO 2)

Num país em que toda a gente se acagaça com medo de falhar e ao mesmo tempo está sempre pronta a abater quem sonha com o prazer de levantar os pés do chão, aqui fica esta imagem.
E o endereço deste site. Talvez a generosidade faça caminho até eles, ao verem a quantidade de coisas inúteis que um dia fizeram sonhar os homens.

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10 de junho de 2005

ÍCARO

Vou-me despachar com o que tenho para fazer e sair à rua. Há luz lá fora. E as pessoas são menos do que o costume na cidade em feriado. É altura dos jacarandás e da feira do livro.
Vou sair à rua para levedar o meu tempo.

9 de junho de 2005

ESTREIA

Esta noite, arranca a nossa peça. Vários meses de trabalho que se podem avistar por um tempo breve de 4a a Sábado. Só até ao final do mês.
Diz a superstição que o ensaio geral tem de correr mal para que a estreia funcione. Por esta lógica, hoje será uma desgraça, lol: os actores estiveram bem, quem assistiu gostou e a música e os vídeos entraram a horas.
Neste fim-de-semana em que quase toda a gente vai assar para as filas de trânsito, vamos lá ver quantos é que aceitam o desafio da contemporânea CIBERNÉTICA.
Mais informações, aqui.

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6 de junho de 2005

NÃO FUI À FEIRA

Parece mentira, mas por causa da peça ainda não coloquei os pés na subida da Feira do Livro. Para um viciado é um esforço razoável.
Chegam-me notícias de que está igual.
Com Homero e muita gente morta a falar.
Calha bem, que os que já cá não estão ainda são os mais interessantes.
O QUE O VIDRO NOS DEVOLVE

Hoje, no reflexo de uma montra, vi um tipo que seguia feliz para o seu trabalho. Não ia com os bolsos cheios de dinheiro, não tinha nada de seu, nem o futuro lhe estava assegurado até à reforma. E contudo, no reflexo, vi esta pessoa que não trocaria de destino por nada.

31 de maio de 2005

PRÉMIO FOTOGRAFIA

Daniel Skramesto ganhou um importante prémio internacional com o seu trabalho fotográfico. Além da escrita provocatória para o mini-burgo que nos abriga, ainda se atreve explícito.
Ai, Ai!... (Esquece o patrocínio do BCP...).
Ver aqui.
ps: almas homofóbicas, abstenham-se. Sugiro, eu...

27 de maio de 2005

A CIBERNÉTICA

Não há tempo para dormir nem para descansar. Mas ela vai nascendo...
De 9 a 30 de Junho espero que muitos caminhos vão dar ao Espaço Atmosferas/Casa Amarela, da rua da Boavista em Lisboa.
Só para os que acreditam na existência de peças que sejam cómicas, dramáticas, absurdas e emotivas... ao mesmo tempo, está a nascer A CIBERNÉTICA...
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25 de maio de 2005

A CONSPIRAÇÃO DOS SOBREIROS

O grupo (momento de persignação) Espírito Santo, gastou hoje 2 páginas do Público (com este dinheiro montava uma peça de teatro... - suspiro - ou pelo menos poderia pensar quanto custará subornar um funcionário da câmara para que nãose esforce tanto em impedir que se façam espectáculos não-subsidiados...- enfim, adiante...) para "provar a sua boa-fé". Adiante-se já, à laia de aviso, que o anúncio termina com alusão ao destino dos que se atreveram a cutucar a onça: "Pouparemos os seus nomes à irrisão pública que merecem, e confiaremos que os Tribunais, a quem serenamente os entregaremos, farão JUSTIÇA."
Gosto do "serenamente", que não via desde os tempos da Inquisição, onde todos os que chateavam a mona aos poderosos eram entregues "serenamente" à tortura e à morte. As maiúsculas de "JUSTIÇA", também têm o seu quê de poético.

Sobre o caso dos sobreiros "alentejanos", segundo Santana Lopes (na entrevista à RTP 1, manifestou sobre esta questão o seu amor à natureza e "ao Alentejo", que como se sabe, teria de se esticar para tocar em Benavente... Mas a ignorância deste burro-vestido (em sentido restricto) é tanta que nem vale a pena comentar...), lemos um grito de revolta. A mesma que foi sentida em 1975 quando se transformaram nas "vítimas de Abril", como agora é moda dizer-se.
Breve: a coisa terá sido toda útil, maravilhosa para a região e o que são 3000 sobreiros (o previsto) no meio de uma mata com 35000?
Fiquemo-nos apenas com este naco de prosa:
"O projecto PORTUCALE envolve a criação de pelo menos 400 novos empregos. A área de implantação do projecto, anteriormente, dava trabalho a um pastor e um cão durante seis meses por ano e a meia-dúzia de corticeiros de 9 em 9 anos". Para quem não saiba... a cortiça é retirada ALTERNADAMENTE em espaços temporais entre 7 a 9 anos. Ou seja, para 35000 sobreiros seria qualquer coisa como retirar a cortiça a cerca de 5 mil sobreiros por ano. O que era capaz de dar trabalho a um pouco mais de 6 pessoas, todos os anos... Digo eu, contas por alto...

"A água necessária para regar os golfes já instalados daria(...) para regar um campo de milho de 30 hectares (...) A receita de um campo de milho dessa dimensão poderá ser no máximo de 40.000 euros por ano, gerando cerca de 0, 5 (????) empregos ano. Estes valores comparam com uma receita mínima de 600.000 euros/ano na exploração do golfe e com a criação de centenas de empregos permanentes directos e indirectos".
Eu por mim, fiquei convencido. Mais: se houve gente do PP a mexer cordelinhos para que projectos tão altruístas fossem aprovados, Deus e o Papa os protejam. Que se lixe a ecologia e a lei... ora a lei... Que se abata serenamente!

22 de maio de 2005

FUTEBOL

1. Mesmo quem não liga nada à coisa consegue perceber que Portugal só tem um clube verdadeiramente nacional. De Lisboa para cima e para baixo; de Portugal a África e ao resto do mundo, esta foi a noite do SLB!SLB!

2. Julgo que foi desmentida a notícia de que Pinto da Costa teria oferecido milhares de contos aos jogadores do Boavista, além de toda a espécie de facilidades futuras, caso ganhassem ao acima referido. Ainda bem que era mentira. Mesmo sabendo o que actualmente se poupa em árbitros estou certo que a prioridade do clube azul é pagar os impostos em dívida. Os milhões de contos em dívida. Só espero que os campeões e os restantes parceiros também se lembrem que a essência do dinheiro é circular nos dois sentidos. Por exemplo, das transacções de jogadores para o erário público.

3. Este é um país actualmente incapaz de produzir seja o que fôr de útil, nem que seja um pensamento. Mas a indústria de cachecóis e cervejas vai de vento em pôpa...

20 de maio de 2005

NÃO TE MEXAS!
Há uns tempos atrás, um ex-aluno meu contava-me que no munda da publicidade só sobrevivia quem se mantivesse invisível. Dentro de uma empresa, claro. Ocupando uma função menos remunerada, claro. Elogiar as brilhantes ideias também ajudaria, mas ao menos que se não levantassem ondas.
Julgo que o mesmo conceito se aplica à maior parte da sociedade portuguesa. Ninguém se lembre de fazer nada. Muito menos de galvanizar energias em torno de um projecto. De imediato se levantará a entourage para o sufocar; para lhe dificultar a vida; para o denegrir contra toda a evidência.
Fala-se muito em inveja. É verdade. Mas é mais mesquinhez; voo rasante sobre o charco; deleitar nos próprios odores.
As entidades oficiais partilham deste sentimento, cobrindo-se de regulamentos e papéis capazes de retirar o ânimo a Aquiles. Cobardes, são incapazes de manter em ordem a casa de todos, mas mordem com cegueira quando o cidadão cumpridor se apresenta para fazer o que deve.
Este é um país com um cancro de mediocridade espalhado pelo corpo todo. Tresanda nas trevas em que mergulhou já ninguém se lembra quando.
Não, não somos todos preguiçosos, invejosos, maldizentes sem razão. E por mais que tentem nivelar-nos a todos por baixo, ainda assim, alguns vão continuar a criar, a lutar pela justiça, a proteger os mais fracos.
Porque o lodo não pode durar para sempre. Não pode.
IN NOMINE...

Para que de uma vez por todas se perceba que o meu nome não é um delírio contemporâneo e muito menos (sorry tias-louras) um desagrado oitocentista, dê-se aqui uma olhadela ;)

17 de maio de 2005

UM TERÇO DO SALÁRIO PARA O DOBRO DO PREÇO

Os italianos devem ser muito despegados do dinheiro. Só assim se explica que nos mercados as laranjas custassem50 cts o quilo, e os vegetais fossem todos corridos na casa de 1 euro ou menos.
Nós não. Damos mais importância à fruta. Por isso, com ordenados inferiores tabelamos tudo, pelo menos para o dobro.